Tiago Cavaco


Milagres no Coração (ed. Valentim de Carvalho, 2018), por Tiago Cavaco (pastor, músico, produtor, escritor, marido, pai, mentor da editora FlorCaveira, Tiago Guillul, Tiago Lacrau, entre outras coisas):


“2017 foi um ano invulgar para mim. Foi dos mais abençoados que já tive e foi também dos mais complicados. Quando em Dezembro terminava a revisão de um livro de sermões no evangelho de Marcos chamado "Milagres no Coração", o assunto da escrita invadiu as ocasiões em que tocava guitarra. A partir da história do encontro de Jesus com uma mulher siro-fenícia (contada em Marcos 6), acabei com uma canção também chamada "Milagres no Coração".

Umas semanas antes tinha começado a tentar gravar o meu primeiro disco de louvor. Disco de louvor é no vocabulário de um cristão evangélico um disco de canções que directamente adoram Deus, canções essas que podem ser usadas num serviço de culto normal de uma igreja. Apesar de ser um cristão evangélico e um músico, nunca em 40 anos me apeteceu fazer um disco tão religioso, nesse sentido tão restrito. Mas 2017, como disse, não foi um ano normal.

A questão é que, na tentativa de fazer um disco de louvor, rapidamente comecei a louvar de uma maneira que para muitos será considerada oblíqua. Comecei a louvar o Deus do Céu a partir das coisas da terra. Na verdade, não há qualquer heresia nisso, antes pelo contrário. Peguei em algumas canções que nunca tinha gravado decentemente (o "Daniel San", o "Sicca" e o "45 Anos Depois") porque quando penso em bênçãos divinas penso também em filmes. Por volta dessa altura eu e a Ana Rute vimos o Breaking Bad e o resultado é o que conto na "Walter White". Ainda na mesma onda, peguei na música de uma velha canção da minha banda Guel, Guillul & o Comboio Fantasma e, fazendo uma letra nova, tomei-a como numa espécie de manifesto para este disco - a "Louvação".

As outras duas canções vieram de outro modo. A "Grandes Coisas" escorregou directamente de um sermão que preguei na Igreja da Lapa nesse mês de Dezembro. Estava a ler um livro puritano chamado "The Valley Of Vision", oferecido pelo meu amigo William Truax e a frase que dá o refrão marcou-me. Casei-a com a história da mãe de Agostinho, Mónica, porque é uma história de pedir a Deus o que desejamos até ao ponto em que ele responde mesmo (no fundo, a mesma lógica da mulher siro-fenícia). Por fim, a "Jack, o Estripador" veio de uma ilustração que usei durante a Escola Dominical dos adultos lá na Lapa. A ilustração é o que conto na canção. Só por dizer que no final canto um refrão de uma música americana de louvor popular, "Good Father".

Em português de Portugal não se diz louvação. Mas dizer louvação em vez de louvor é a minha maneira de explicar que o meu modo de louvar não é o tido como mais tradicional, especialmente para quem consome a música religiosa de países como os Estados Unidos e o Brasil (e "Louvação" é também o título de um disco antigo do Gilberto Gil, e já tinha usado a palavra numa canção da Xungaria no Céu, chamada "Mais Louvação"). Iria mais longe e diria mesmo que falta uma música de louvor que encaixe nas pessoas que vêm de países velhos como Portugal.

A maior parte da música religiosa que gera números impressionantes na internet tem o efeito retro-activo de me cansar. De cada vez que tento ouvir os discos do 'worship' actual fico com a ideia de que sou pouco espiritual. As vozes lá parece que nasceram para cantar para Deus. Para mim não é bem assim. Para mim o louvor é uma luta. A minha necessidade de louvar é proporcional à dificuldade que sinto em fazê-lo. Mas também devo ser sincero e assumir que o custo que o louvor me pede me parece ser mais parecido com o louvor que encontro na Bíblia. Os salmistas das Escrituras parecem-me muito menos emo do que os cantores evangélicos americanos e brasileiros.

Por outro lado, no final de Dezembro de 2017 a minha audição estava quase exclusivamente dedicada a country e a hip-hop. Não pelo som propriamente dito, porque não suposto as lap-steel guitars dos cowboys nem o narcisismo dos rappers. Mas pela fixação na história pessoal, que o country assume descomplexadamente, e pela predominância da palavra, que o hip-hop conserva. Se adicionar a isto a libertação que foi conhecer nos últimos anos a música do Mark Kozelek, diria que este disco que gravei saiu deste encontro inesperado entre o acústico e o discurso directo.

Ao mostrar este disco a pessoa em quem confio pelo seu critério musical, tenho encontrado reacções diferentes. Uns aderem à primeira audição e outros questionam a pertinência destas canções. O facto de estarem a ler estas linhas significa que tenho teimado em acreditar nelas. Sinto necessidade de empregar a minha voz como empreguei a dizer as coisas que aqui disse. Trabalhei para retirar artifícios porque é mesmo isto que queria fazer (e foi a primeira vez que voltei a depender apenas de mim para gravar desde o IV há dez anos). Talvez este "Milagres no Coração" se resuma a uma espécie de semi-diário-musical-terapia de um ano que para mim foi especial. Eventualmente nem chega mesmo para se justificar enquanto disco. Mas o meu coração não consegue guardar para si estas coisas simples que, honestamente, tenho como milagres. Espero que contá-las assim sirva para alguma coisa também na vossa vida.

Tiago Cavaco, Janeiro de 2018.


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